Ureia e Creatinina: 2 Exames Para Avaliar os Rins

Ureia e creatinina são o par mais pedido quando alguém quer saber como estão os rins, e também o par mais mal lido do laudo. A frase que resume o problema está nos próprios manuais de referência médica: a creatinina sérica, isolada, não é um bom indicador de função renal. Não é opinião de blog, é o que está escrito na literatura que os médicos consultam.

Isso não quer dizer que o exame seja ruim. Quer dizer que ele é um ponto de partida, e que a parte que realmente responde sobre função renal vem depois: a taxa de filtração glomerular estimada e a albuminúria. Este texto organiza as duas camadas da avaliação de ureia e creatinina, porque é a confusão entre elas que gera a maior parte dos sustos.

Tubo de coleta usado no exame de ureia e creatinina

Ureia e creatinina: o que cada uma mede

A ureia é o produto final do metabolismo das proteínas. O corpo quebra proteína, sobra amônia, o fígado a converte em ureia e o rim a elimina. Já a creatinina vem de outro lugar: ela é o produto da degradação da creatina, que está no músculo, e por isso a sua produção é relativamente constante no mesmo indivíduo ao longo do tempo.

Essa diferença de origem é a razão de pedirem ureia e creatinina juntas. A creatinina tem produção estável e depende mais da excreção, o que a torna uma estimativa melhor de filtração. A ureia tem produção instável e depende de dieta, catabolismo e sangramento, o que a torna uma péssima medida isolada, mas uma boa pista de contexto quando comparada com a creatinina.

Valores de referência de ureia e creatinina

ExameFaixa usualConsiderado alterado
Ureia15 a 40 mg/dLVaria conforme o laboratório
Creatinina (homens)cerca de 0,7 a 1,3 mg/dLAcima de 1,3 mg/dL
Creatinina (mulheres)cerca de 0,6 a 1,0 mg/dLAcima de 1,0 mg/dL

Os limites de 1,3 mg/dL para homens e 1,0 mg/dL para mulheres são os que a literatura de referência usa para chamar a creatinina de anormal. A diferença entre os sexos não é arbitrária: ela existe porque a creatinina depende de massa muscular. E as faixas exatas mudam de um serviço para outro, pelos motivos que eu detalho em por que os valores de referência mudam entre laboratórios.

Por que a creatinina depende do seu músculo

Este é o ponto que muda a leitura do par ureia e creatinina em metade das pessoas. A concentração de creatinina no sangue depende de duas coisas: quanto o corpo produz e quanto o rim excreta. Massa muscular maior eleva a creatinina sérica. Pessoas idosas e desnutridas tendem a ter valores mais baixos.

Na prática, isso significa que uma creatinina de 1,1 mg/dL conta histórias diferentes em pessoas diferentes. Em um homem de 25 anos, 90 kg e muito musculoso, provavelmente é só músculo. Em uma senhora de 80 anos e 48 kg, o mesmo 1,1 pode representar uma perda de função renal significativa, porque ela produz muito menos creatinina para começar. O número é o mesmo; a informação não é.

O que eleva a creatinina sem existir lesão no rim

A lista é curta e vale conhecer. Inibidores da ECA e bloqueadores do receptor de angiotensina elevam a creatinina de forma reversível, principalmente em quem está desidratado ou usando diurético. Cimetidina, trimetoprima, cefoxitina e flucitosina também sobem o valor. E ingestão grande de carne antes da coleta aumenta a creatinina por via alimentar.

Nada disso é lesão renal. São interferências, e todas elas explicam resultados que parecem alarmantes em pessoas sem sintoma nenhum. Eu desenvolvo esse raciocínio no texto específico sobre creatinina alta, que é o cenário mais comum de busca.

Por que a ureia isolada é considerada inconclusiva

A literatura é direta aqui: a ureia sofre influência da ingestão de proteína e de vários processos não renais, e por isso é geralmente inconclusiva como evidência de disfunção renal. Entre esses processos estão trauma, infecção, sangramento digestivo e uso de corticoide.

O sangramento digestivo é o mais relevante de todos, porque sangue no tubo digestivo é proteína sendo absorvida, e isso eleva a ureia sem ter nada a ver com o rim. É um dos motivos de uma ureia alta isolada merecer contexto em vez de conclusão, assunto que eu trato em ureia alta no exame de sangue.

A relação entre ureia e creatinina: a conta que dá a direção

É aqui que ureia e creatinina deixam de ser dois números soltos. Na literatura internacional, que trabalha com BUN, uma relação BUN/creatinina acima de 15 é considerada anormal e aponta para causa pré-renal ou pós-renal, isto é, antes ou depois do rim. Como o padrão brasileiro reporta ureia, e a ureia tem dois nitrogênios enquanto o BUN mede só o nitrogênio, isso corresponde a uma relação ureia/creatinina em torno de 32.

Relação bem acima disso, com creatinina normal, é o padrão clássico de desidratação ou de sangramento digestivo. Ureia e creatinina subindo juntas, com relação próxima de 32 ou menor, coloca o rim no centro da investigação. Quando a dúvida é essa, entram exames de urina: sódio urinário abaixo de 10 mEq/L sugere depleção de volume, acima de 40 mEq/L aponta lesão tubular, e a fração de excreção de sódio abaixo de 1% indica causa pré-renal, acima de 2% causa intrínseca, com a zona de 1% a 2% ficando indeterminada. É por isso que o painel de eletrólitos costuma vir na mesma folha.

O exame que realmente mede função renal: a TFG estimada

A taxa de filtração glomerular estimada, ou eGFR, é calculada a partir da creatinina com equações que incorporam idade e sexo. A recomendação atual é usar a equação CKD-EPI de 2021, que, diferente das versões anteriores, não faz ajuste por raça.

Existe ainda um segundo marcador, a cistatina C, indicado como teste confirmatório quando fatores não renais interferem na creatinina: massa muscular extrema, suplementação de creatina, amputações, doença neuromuscular e dietas muito ricas em proteína ou à base de plantas. Quando disponível, a estimativa pode ser feita combinando creatinina e cistatina C, com a equação própria. Na prática brasileira a cistatina C ainda é pouco pedida, mas é a resposta certa para aquele caso em que o número da creatinina não combina com a pessoa. O par ureia e creatinina é ponto de partida, não conclusão.

Os estágios da doença renal crônica

EstágioTFG estimada (mL/min/1,73 m²)
190 ou mais, com albuminúria persistente ou doença renal estrutural conhecida
260 a 89
3a45 a 59
3b30 a 44
415 a 29
5menor que 15

E agora a informação mais importante desta seção: a evidência mais confiável de doença renal crônica é função reduzida, com TFG abaixo de 60, mantida por pelo menos três meses. Uma única creatinina alterada não fecha diagnóstico de doença renal crônica. Ela indica repetição, contexto e cálculo da TFG, e é justamente por ignorar o critério de tempo que tanta gente sai do laboratório achando que tem doença renal.

A metade esquecida da avaliação: a albuminúria

Dá para ter ureia e creatinina normais, TFG normal, e ainda assim ter doença renal em curso. O marcador que revela isso é a albumina na urina. Considera-se alterada uma relação albumina/creatinina urinária igual ou maior que 30 mg/g, e proteinúria em faixa nefrótica acima de 3 gramas em 24 horas.

É por isso que o estágio 1 da tabela acima exige albuminúria persistente para existir, mesmo com filtração preservada. Em diabetes e hipertensão, a albuminúria costuma aparecer antes da queda da filtração, o que a torna o exame de rastreio mais sensível que temos, e também o mais esquecido. Uma parte dela aparece no exame de urina EAS, mas a dosagem específica é um pedido à parte, e vale perguntar por ela.

Quem deve acompanhar e com que frequência

Quem tem diabetes ou hipertensão está no grupo que mais se beneficia de acompanhamento regular, porque essas duas condições são as principais causas de doença renal crônica. Nesse cenário, o controle da hemoglobina glicada e da pressão arterial é o que efetivamente protege o rim, muito mais do que qualquer ajuste de dieta isolado.

Entram também pessoas com histórico familiar de doença renal, usuários crônicos de anti-inflamatórios, portadores de doenças autoimunes e quem já teve lesão renal aguda. A frequência de repetição de ureia e creatinina é definida por quem acompanha, e depende do estágio e do risco de cada um.

Quando não dá para esperar

Urinar muito pouco ou nada, inchaço em pernas e rosto, falta de ar em esforço pequeno, confusão mental ou sonolência, náusea e vômitos persistentes, e elevação rápida de creatinina em poucos dias. Esses achados apontam para lesão aguda, e lesão aguda tem janela de tratamento. Nesses casos o caminho é avaliação no mesmo dia, não repetir o exame na semana seguinte.

Perguntas frequentes sobre ureia e creatinina

Suplemento de creatina altera a creatinina do exame?

Altera, e isso está descrito na literatura como um dos fatores não renais que interferem no resultado. Quem usa creatina pode ter creatinina sérica mais alta sem nenhuma lesão renal, e é exatamente um dos casos em que a cistatina C serve como teste confirmatório. O que não se deve fazer é concluir lesão renal pelo número sem considerar o suplemento, nem abandonar a investigação achando que o suplemento explica tudo.

Preciso de jejum para dosar ureia e creatinina?

Em geral o jejum pedido é curto, e costuma vir junto por causa de outros exames da mesma folha. Mais importante do que o jejum é não exagerar na carne nos dias anteriores e não chegar desidratado para a coleta, porque as duas coisas mexem no resultado de verdade.

Beber muita água antes do exame melhora o resultado?

Hidratação adequada evita o falso aumento causado por desidratação, e nesse sentido ajuda a ter um resultado representativo. Mas beber dois litros de água na hora anterior não corrige função renal reduzida e não é uma forma de maquiar exame. O que se busca é um valor fiel, não um valor baixo.

Treino pesado pode alterar o exame?

Pode. Exercício intenso altera ureia e creatinina por dois caminhos: aumenta a produção de creatinina e eleva a ureia por catabolismo, e em casos extremos existe o risco de rabdomiólise, que é lesão muscular com repercussão renal real. O razoável é não coletar exame de função renal no dia seguinte a um treino muito fora do habitual.

Se o que você procura é especificamente por que as duas se dissociam, com os três padrões possíveis e a conversão da razão BUN para a ureia que o laboratório brasileiro informa, esse aprofundamento está em diferença entre ureia e creatinina.

Fontes

Escrito por GustavoGraduando em Biomedicina, tecnólogo em Análise e Desenvolvimento de Sistemas e pós-graduando em Engenharia de Inteligência Artificial Aplicada. Escreve o Laudo Aberto para explicar exames laboratoriais em linguagem clara, sempre com a fonte à vista. Não é médico e não faz diagnóstico. Conheça quem escreve aqui.
Aviso importanteO Laudo Aberto tem caráter informativo e educativo. O conteúdo é baseado em literatura de análises clínicas, mas não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento de um profissional de saúde. Valores de referência variam entre laboratórios, e a interpretação de qualquer exame depende do seu histórico clínico. Em caso de dúvida sobre um resultado, procure o profissional que solicitou o exame.

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