Teste BRCA: 5 Coisas Para Saber Antes de Fazer

O teste BRCA estima risco, não diagnostica câncer. Veja quem tem indicação, o que mudou no SUS em 2026, os números reais de risco e o que fazer com o resultado.

Toda vez que uma atriz anuncia que fez mastectomia preventiva, a busca por teste BRCA explode. E junto dela vem a pergunta errada: qual exame de sangue descobre se eu vou ter câncer de mama. Não existe esse exame, e o teste BRCA não é ele.

O teste BRCA é um exame genético, feito uma vez na vida, que procura alterações herdadas em dois genes de reparo do DNA, o BRCA1 e o BRCA2. Ele não diz se você tem câncer hoje nem se vai ter. Ele estima risco, e só faz sentido para quem se encaixa em critérios bem definidos. Para a maioria das pessoas, ele simplesmente não tem indicação.

Esse é o artigo que eu gostaria de ter lido antes de entender o assunto, porque o Brasil mudou de regra em 2026 e metade do que está publicado por aí está desatualizado.

O que o teste BRCA procura, e por que isso é diferente de marcador tumoral

Todos nós temos duas cópias de BRCA1 e duas de BRCA2, uma de cada genitor. Esses genes produzem proteínas que consertam quebras no DNA. Segundo o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, quando uma das cópias tem uma alteração danosa, o reparo fica menos eficiente e o risco de alguns tumores sobe.

Duas palavras ajudam a não se perder. Variante germinativa é a herdada, presente em todas as células do corpo, e é essa que o teste BRCA de risco avalia. Variante somática é a que surge só dentro do tumor ao longo da vida, e é avaliada em outro exame, feito no tecido, geralmente para decidir tratamento.

Nada disso se parece com um marcador tumoral. Quando escrevi sobre CA 15-3 alto, o ponto era que aquele exame acompanha doença já diagnosticada. O teste BRCA faz o oposto: olha para o futuro, uma única vez, e não muda se você repetir no mês seguinte. A mesma confusão acontece com o exame de PSA, que é de acompanhamento, não de predisposição.

Cientista usando pipeta em laboratorio onde se faz o teste BRCA
O teste BRCA e feito uma vez na vida: o resultado nao muda com o tempo, mas a interpretacao dele pode.

Quem tem indicação de teste BRCA no Brasil

A referência mais concreta que temos por aqui é a diretriz de utilização 110.7 do rol da ANS, que vale para quem tem plano de saúde. Ela lista, entre outras situações, mulher com câncer de mama diagnosticado com 35 anos ou menos; diagnóstico até 50 anos somado a um segundo tumor de mama ou a parente com câncer de mama ou de ovário; câncer de mama triplo-negativo até 60 anos; mulher com câncer de ovário epitelial em qualquer idade; homem com câncer de mama em qualquer idade; e pessoas acima de 18 anos, com ou sem câncer, que tenham um familiar com mutação deletéria já identificada.

Repare no desenho: quase todos os critérios partem de alguém que já teve câncer, ou de uma variante já conhecida na família. Mulher sem diagnóstico e sem mutação familiar identificada, por história familiar genérica, normalmente fica fora da cobertura obrigatória. Isso frustra muita gente, e é a parte que ninguém avisa antes.

A ordem dos exames também é escalonada. Se a variante da família já é conhecida, testa-se apenas ela. Se não, faz-se o sequenciamento dos dois genes e, quando negativo, os complementos; persistindo negativo, abre-se a porta para o painel com mais genes, porque BRCA1 e BRCA2 não são os únicos envolvidos em câncer hereditário.

O que mudou no SUS em 2026

Aqui está a novidade que ainda não chegou à maioria dos sites. A Portaria SCTIE/MS nº 25, de 11 de maio de 2026 tornou pública a decisão de incorporar ao SUS o sequenciamento de nova geração de BRCA1 e BRCA2 para mulheres com câncer de mama. A recomendação veio da Conitec, depois de uma consulta pública com milhares de contribuições e de uma votação final favorável em abril de 2026.

Duas ressalvas importantes, e eu prefiro dizer do que deixar você descobrir na fila. A primeira é que a norma dá prazo de até 180 dias para o teste ficar disponível, ou seja, decisão publicada não é a mesma coisa que exame funcionando em todo lugar. A segunda é que a população incorporada é mulheres com câncer de mama; quem não tem diagnóstico e quer testar por história familiar continua, na prática, dependendo da rede privada ou de programas estaduais.

Os números de risco, com as faixas honestas

É aqui que a internet mais exagera. O estudo prospectivo internacional publicado no JAMA em 2017 estimou risco cumulativo de câncer de mama até os 80 anos em torno de 72% para portadoras de variante em BRCA1 e 69% para BRCA2, com intervalos de confiança de 65 a 79% e de 61 a 77%. Para ovário, 44% no BRCA1 e 17% no BRCA2.

O Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos trabalha com faixas que reúnem vários estudos: mais de 60% para mama, 39 a 58% para ovário no BRCA1 e 13 a 29% no BRCA2. Como referência, na população geral o risco de câncer de mama ao longo da vida fica em torno de 13% e o de ovário em 1,1%.

Por que os números divergem? Porque dependem da população estudada, da família e da idade considerada, e a maior parte dos dados vem de populações de ancestralidade europeia. Não encontrei estimativa específica para portadoras brasileiras. Então a leitura correta é de faixa, não de número cravado, e quem transforma isso em “87% de chance” está citando material antigo e sem fonte.

Outro ponto que se perde nessa conta: homens também herdam e transmitem a alteração, com risco aumentado de câncer de mama masculino, de próstata e de pâncreas. E que, segundo o INCA, o câncer de mama hereditário responde por apenas 5 a 10% de todos os casos. A maioria dos cânceres de mama não tem nada a ver com BRCA.

Os três resultados possíveis, incluindo o que mais angustia

  • Variante patogênica. Confirma predisposição aumentada. Não é diagnóstico de câncer, e não diz quando ou se a doença vai aparecer.
  • Resultado negativo. Se a família tem uma variante conhecida e você testou negativo para ela, o resultado é definitivo para aquela alteração. Fora desse cenário, negativo não elimina risco: você continua com o risco da população geral, somado ao peso da sua história familiar.
  • Variante de significado incerto, a famosa VUS. Significa que os dados disponíveis não permitem dizer se aquela alteração é danosa. A maioria acaba reclassificada como benigna com o tempo. Até lá, a conduta se baseia na história familiar, e não no laudo.

Esse terceiro resultado é o que eu considero o maior argumento a favor do aconselhamento genético antes do teste BRCA. Receber um VUS sem ninguém para explicar o que ele é significa semanas de angústia por uma informação que, na prática, não mudou nada.

O que acontece com quem tem resultado positivo

A conduta deixa de ser rastreamento de população e passa a ser vigilância individual. A recomendação conjunta de 2023 do Colégio Brasileiro de Radiologia com a Sociedade Brasileira de Mastologia e a Febrasgo prevê ressonância magnética das mamas anual a partir do diagnóstico da variante, não antes dos 25 anos no BRCA1 e dos 30 no BRCA2, combinada com mamografia anual a partir dos 35 ou dos 30, conforme o gene.

Para ovário a situação é diferente e mais dura: o NCI registra que ultrassom transvaginal e CA-125 não demonstraram melhorar a sobrevida, ou seja, não existe rastreamento eficaz. É justamente por isso que a cirurgia de retirada das trompas e dos ovários entra na conversa. Pelo material do NCI, essa cirurgia reduz o risco de câncer de ovário em mais de 90% e o de mama em torno de metade, mas é irreversível e tem consequências próprias.

Nenhuma dessas decisões se toma pelo laudo. Elas se tomam em consulta, com histórico, idade, planos de gravidez e preferências na mesa.

Quanto custa o teste BRCA

Vou ser honesto sobre o que encontrei, porque aqui o chão é instável. Os preços publicados variam muito conforme o laboratório, o método e se o painel inclui outros genes. Uma matéria de maio de 2026 fala em uma faixa de mil a três mil reais para o teste no particular, sem citar a origem do valor. Um laboratório de grande rede anuncia sequenciamento de BRCA1, BRCA2 e TP53 a partir de pouco mais de mil e quinhentos reais, e materiais mais antigos citam valores bem maiores.

O documento da Conitec que embasou a incorporação trabalha com outro patamar, de compra pública: cerca de 519 reais por teste, com custo em torno de 799 reais quando se inclui o aconselhamento genético. Não é preço de balcão, é custo para o sistema, e serve para mostrar o tamanho da diferença entre comprar em escala e comprar no varejo.

Como os valores de referência variam entre laboratórios, e como aqui também mudam método e abrangência, o jeito certo de comparar orçamento é perguntar exatamente quais genes entram e qual técnica será usada, não só o valor final.

Perguntas frequentes sobre o teste BRCA

Preciso de jejum ou preparo?

Não. É uma coleta comum de sangue, ou às vezes de saliva, sem jejum. Para entender o passo a passo completo, do preparo ao laudo, veja as fases de um exame de sangue.

Posso fazer o teste BRCA por conta própria, sem indicação?

Pagando, em geral sim, mas eu não recomendaria sem aconselhamento genético antes. O resultado pode vir com uma variante de significado incerto, ou pode vir negativo e passar uma falsa sensação de segurança. Além disso, alguns testes vendidos direto ao consumidor não analisam todas as variantes dos dois genes.

Se minha mãe tem a variante, eu tenho?

Não necessariamente. Numa herança como essa, cada filho pode ter herdado a cópia alterada ou a normal, com chances em média iguais. É justamente por isso que o teste dirigido para a variante conhecida da família é o mais informativo de todos.

O teste BRCA serve para acompanhar tratamento?

Não. Ele não muda com o tempo nem responde a tratamento. Quem acompanha doença em atividade são outros exames, incluindo marcadores e imagem. Em alguns casos, saber que existe a variante abre acesso a medicamentos específicos, mas isso é consequência do resultado, não acompanhamento.

Homem precisa fazer teste BRCA?

Pode precisar. Homens herdam e transmitem a alteração, e a diretriz da ANS cobre homem com câncer de mama em qualquer idade. Há ainda risco aumentado de próstata e pâncreas, sobretudo no BRCA2.

Se você chegou aqui com medo de câncer na família, o movimento mais útil não é pedir o teste BRCA no próximo exame de sangue. É montar o histórico: quem teve câncer, qual tipo e com que idade, dos dois lados da família. Com esse papel na mão, uma consulta de aconselhamento genético resolve em meia hora o que meses de busca na internet não resolvem.

Fontes

Escrito por GustavoGraduando em Biomedicina, tecnólogo em Análise e Desenvolvimento de Sistemas e pós-graduando em Engenharia de Inteligência Artificial Aplicada. Escreve o Laudo Aberto para explicar exames laboratoriais em linguagem clara, sempre com a fonte à vista. Não é médico e não faz diagnóstico. Conheça quem escreve aqui.
Aviso importanteO Laudo Aberto tem caráter informativo e educativo. O conteúdo é baseado em literatura de análises clínicas, mas não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento de um profissional de saúde. Valores de referência variam entre laboratórios, e a interpretação de qualquer exame depende do seu histórico clínico. Em caso de dúvida sobre um resultado, procure o profissional que solicitou o exame.

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