Exame de Urina (EAS): 3 Partes e Principais Alterações

O exame de urina tipo 1, também chamado de EAS, é provavelmente o exame com a melhor relação entre o que custa e o que informa. Ele é barato, rápido, não precisa de agulha e consegue apontar infecção, doença renal, descompensação de diabetes e problema hepático na mesma folha de papel.

E é também o exame que mais se lê pela metade. A maioria das pessoas, e não poucos pedidos, param na segunda parte, a da fita reagente, aquela das cruzinhas. A terceira parte, o sedimento visto no microscópio, é onde está a informação que muda diagnóstico, e ela costuma passar em branco.

Laboratório de análises clínicas, onde o exame de urina EAS é processado

As 3 partes de um exame de urina

Um exame de urina completo é, na verdade, três exames diferentes feitos na mesma amostra: a avaliação física, que olha cor, aspecto e densidade; a avaliação química, feita com a fita reagente de várias faixas coloridas; e a avaliação microscópica do sedimento, feita depois de centrifugar a urina. Cada uma responde a perguntas diferentes, e a terceira é a que exige um olho humano.

Parte 1: o que a densidade e a cor dizem

Na primeira parte do exame de urina, a densidade é mais útil do que parece. Valores acima de 1.010 indicam que o rim conservou a capacidade de concentrar urina, o que, na ausência de diurético, aponta para causa pré-renal em quadros de lesão aguda, isto é, desidratação e não lesão do tecido renal. Existe até uma regra de conversão prática: cada 0,001 acima de 1.000 corresponde a aproximadamente 30 de osmolalidade, de modo que 1.010 equivale a cerca de 300 mOsm.

Essa medida tem limites. Partículas grandes na urina, como proteína, glicose ou contraste radiológico, deixam a densidade imprecisa. E urina muito diluída atrapalha a terceira parte do exame, por um motivo que vale guardar: a diluição faz as células incharem por osmose e se romperem, o que subestima a contagem no sedimento.

Parte 2: a fita reagente, faixa por faixa

FaixaO que detectaOnde erra
pHNormal entre 4,5 e 8Acima de 7 sugere bactéria que quebra ureia, alcalose ou cálculo de fosfato de cálcio; abaixo de 5, acidose metabólica
Leucócito esteraseRastreia mais de 10 leucócitos por campoFalso positivo por contaminação vaginal; falso negativo com densidade alta ou glicose na urina
NitritoBactérias gram-negativas que convertem nitratoNegativo em Enterococcus e S. saprophyticus; exige mais de 4 horas de urina na bexiga
SangueHemácias, hemoglobina livre ou mioglobinaPositivo em hemólise e em rabdomiólise, sem hemácia nenhuma na urina
Proteína1+ cerca de 30 mg/dL, 2+ cerca de 100, 3+ cerca de 300, 4+ acima de 2.000É qualitativa; contraste dá falso positivo; não detecta microalbuminúria nem proteína de Bence-Jones
GlicoseAparece com glicemia acima de 180 mg/dLTambém aparece na gestação e na síndrome de Fanconi
CetonasCetoacidose diabética, cetoacidose alcoólica, jejum prolongadoDetecta acetoacetato, mas não acetona nem beta-hidroxibutirato; levodopa dá falso positivo

Essa tabela carrega as duas informações mais úteis do exame de urina inteiro. A primeira é que a faixa de proteína não serve para rastrear microalbuminúria, que é justamente o marcador precoce de doença renal em diabetes e hipertensão. Quem precisa disso tem que pedir a dosagem específica, assunto que eu desenvolvo em ureia e creatinina e em creatinina alta.

A segunda é o nitrito. Ele só fica positivo com bactérias gram-negativas e só depois de a urina ter passado mais de quatro horas na bexiga. Então uma pessoa com cistite por Enterococcus, ou alguém que está urinando a cada hora de tanta urgência, pode ter nitrito negativo com infecção em curso. Nitrito negativo não afasta infecção urinária, e é por isso que existe a urocultura.

Parte 3: o sedimento, onde está o diagnóstico

Aqui o exame de urina deixa de ser triagem e passa a ser quase um exame de imagem do rim. Hemácias deformadas, chamadas dismórficas, ou cilindros hemáticos sugerem glomerulonefrite, ou seja, inflamação do filtro renal. Isso é um achado grave e específico, que não aparece em nenhuma cruzinha da fita.

Os cilindros contam uma história por tipo. Cilindros leucocitários sugerem pielonefrite ou nefrite intersticial. Cilindros granulosos de aspecto marrom-escuro, junto de células tubulares renais, sugerem necrose tubular aguda. Cilindros hialinos são inespecíficos e aparecem em estados pré-renais, com uso de diurético e depois de exercício. Cilindros céreos aparecem mais na doença renal crônica.

Os leucócitos do sedimento também se diferenciam: neutrófilos apontam infecção, enquanto eosinófilos, identificados com coloração especial, apontam nefrite intersticial alérgica, tipicamente por medicamento. E os cristais fecham o quadro: cristais de ácido úrico aparecem em urina ácida e se relacionam com o tema que eu trato em ácido úrico; cristais de estruvita, com formato descrito como tampa de caixão, aparecem em infecção crônica por bactérias que quebram ureia; e há cristais ligados a intoxicação por etilenoglicol e a medicamentos como sulfa, aciclovir e indinavir.

Os números que definem alteração

Dois limiares resolvem a maior parte das dúvidas de leitura. Piúria, que é excesso de leucócitos, é definida acima de 10 leucócitos por campo de grande aumento, que é exatamente o patamar que a fita de leucócito esterase tenta rastrear. E hematúria microscópica é definida como 3 ou mais hemácias por campo em pelo menos 2 de 3 amostras.

Esse detalhe das duas de três amostras é importante e quase sempre ignorado. Uma única amostra com quatro hemácias por campo, em pessoa sem sintoma, não fecha hematúria. Pede repetição, e a repetição costuma resolver a questão sem exame nenhum de imagem. As faixas impressas no seu laudo, por sua vez, dependem do método do laboratório, como eu explico em por que os valores de referência mudam entre laboratórios.

O que invalida a amostra

O tempo é o fator principal. A análise é mais útil com urina fresca, idealmente processada dentro de 30 a 60 minutos. Depois disso, células se degradam, bactérias se multiplicam e o sedimento deixa de representar o que havia na bexiga.

A lista de armadilhas continua com a contaminação vaginal, que dá falso positivo de leucócito esterase; a urina muito diluída, que lisa células e subestima contagens; densidade alta ou glicose na urina, que dão falso negativo na mesma fita; e a coleta por cateter, que pode causar hematúria por trauma da própria sondagem. Nesse aspecto, o exame de urina se parece com o parasitológico de fezes: a qualidade da coleta pesa mais no resultado do que a técnica do laboratório.

Por que o exame de urina entra em quase todo check-up

Existe uma razão prática para ele estar em todo pedido de rotina: é o único exame barato que consegue olhar ao mesmo tempo para rim, vias urinárias, metabolismo da glicose e fígado. E o rim, em particular, é silencioso. Perde função por anos sem dar sintoma, e quando dá, já perdeu muito. Um exame de urina alterado costuma chegar antes da queixa.

Isso tem um custo que vale dizer com honestidade. Quanto mais parâmetros um exame tem, maior a chance de algum vir fora da faixa por puro acaso estatístico, e o EAS tem dezenas de itens entre fita e sedimento. Achado isolado, discreto, em pessoa sem sintoma, costuma pedir repetição com coleta bem feita, e não uma investigação em cascata. Foi assim que eu passei a ler esse exame: primeiro o conjunto, depois cada linha.

Exame de urina e urocultura: o que cada um responde

O exame de urina responde em minutos e trabalha com indícios: tem leucócito, tem nitrito, tem sangue, tem proteína. A urocultura responde em dois dias e trabalha com identidade: qual bactéria, em que quantidade, sensível a quais antibióticos. Um não substitui o outro, e pedir cultura automaticamente por causa de piúria isolada, em pessoa sem sintoma, é um dos exageros mais comuns da rotina.

Quando o resultado pede atendimento rápido

Sangue visível na urina, mesmo sem dor. Proteína em grande quantidade com inchaço em pernas e rosto. Hemácias dismórficas ou cilindros hemáticos no laudo, especialmente com pressão alta. Cilindros granulosos marrons em quem está com creatinina subindo. Febre com dor lombar e alteração urinária. Esses achados não são para a próxima consulta de rotina: são para avaliação médica rápida, porque a janela de tratamento de uma doença glomerular ou de uma lesão tubular aguda importa.

Perguntas frequentes sobre o exame de urina

Precisa ser a primeira urina da manhã?

A primeira urina da manhã é a preferida porque é mais concentrada e passou horas na bexiga, o que favorece tanto o sedimento quanto a positividade do nitrito. Não é obrigatória, e uma amostra de outro horário continua útil, especialmente se houver sintoma agora.

Posso fazer exame de urina menstruada?

Pode, mas o sangue menstrual contamina a amostra e inviabiliza a leitura de hemácias e, às vezes, de leucócitos. Se o quadro permitir esperar, vale remarcar. Se não permitir, colete e avise, porque isso muda a interpretação do laudo.

Urina escura significa desidratação?

Na maioria das vezes sim, e nesse caso clareia ao beber água. Mas urina muito escura, cor de chá ou de refrigerante de cola, especialmente com fezes claras ou pele amarelada, aponta para problema hepático ou biliar. E urina avermelhada depois de exercício extenuante pode ser mioglobina, não sangue, o que é um cenário diferente e mais urgente.

Nitrito negativo quer dizer que não tenho infecção?

Não. O nitrito depende do tipo de bactéria e do tempo que a urina ficou na bexiga, e fica negativo em infecções por bactérias gram-positivas como Enterococcus e S. saprophyticus. Sintoma urinário com nitrito negativo continua sendo motivo de avaliação, e a cultura é quem decide.

Fontes

Escrito por GustavoGraduando em Biomedicina, tecnólogo em Análise e Desenvolvimento de Sistemas e pós-graduando em Engenharia de Inteligência Artificial Aplicada. Escreve o Laudo Aberto para explicar exames laboratoriais em linguagem clara, sempre com a fonte à vista. Não é médico e não faz diagnóstico. Conheça quem escreve aqui.
Aviso importanteO Laudo Aberto tem caráter informativo e educativo. O conteúdo é baseado em literatura de análises clínicas, mas não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento de um profissional de saúde. Valores de referência variam entre laboratórios, e a interpretação de qualquer exame depende do seu histórico clínico. Em caso de dúvida sobre um resultado, procure o profissional que solicitou o exame.

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