A pergunta sobre unhas fracas parte de uma premissa que, na maioria dos casos, está errada: a de que falta uma vitamina. Fragilidade de unha é muito mais frequentemente mecânica, química ou dermatológica do que nutricional, e existe uma ironia no meio do caminho que eu vou contar neste texto: o suplemento mais vendido para unha é justamente o que mais atrapalha exames de sangue.
Isso não significa que não exista deficiência nutricional por trás de unhas fracas. Existe, é bem definida, e tem exame objetivo. Mas é uma lista curta, e vale conhecê-la antes de sair comprando frasco.

Antes dos exames: a unha é um registro lento
A unha da mão cresce cerca de 3 milímetros por mês, e a do pé bem menos. Isso significa que a lâmina que você está olhando hoje foi formada há meses, e que a parte mais próxima da cutícula é a única que reflete o que está acontecendo agora.
Duas consequências práticas saem daí. A primeira é que uma deficiência corrigida hoje só vai aparecer como unha saudável depois de meses, porque é preciso esperar o crescimento substituir a lâmina inteira. A segunda é que, se as unhas fracas começaram de forma súbita e uniforme, o gatilho provavelmente é externo e recente, e não uma deficiência que levaria meses para se instalar.
A deficiência que realmente aparece na unha
De todas as carências nutricionais, a de ferro é a que tem relação mais consistente com alteração de unha. A apresentação clássica é a coiloníquia, em que a unha fica achatada e depois escavada, com formato de colherinha. Ela não é a apresentação mais comum da deficiência de ferro, mas quando aparece, é bastante sugestiva.
O exame certo aqui não é só o hemograma. Deficiência de ferro acontece em etapas: primeiro as reservas se esgotam, depois a produção de hemácias cai, e só no fim a hemoglobina desce. Dá para ter unhas fracas, cabelo caindo e cansaço com hemograma perfeitamente normal e ferritina no chão. Por isso o pedido útil é hemograma com ferritina, como explico em ferritina e ferro sérico e em hemoglobina baixa.
A segunda causa com exame objetivo: tireoide
Tanto hipotireoidismo quanto hipertireoidismo alteram unha e pelo. No hipotireoidismo, as unhas tendem a ficar quebradiças e de crescimento lento, acompanhadas de pele seca, cansaço, intolerância ao frio e constipação. No hipertireoidismo, podem ficar finas, com descolamento da borda livre.
O exame de triagem é o TSH, que sobe antes de o T4 cair e por isso é o mais sensível. As faixas e a lógica do par estão em TSH e T4 livre. É um exame barato, amplamente disponível, e que explica uma parcela real dos casos de unhas fracas associadas a outros sintomas.
Zinco, proteína e as deficiências de contexto
Deficiência de zinco altera unha, pele e cicatrização, mas ela não acontece do nada: aparece em contextos específicos, como doenças que reduzem absorção, cirurgia bariátrica, alcoolismo crônico, dietas muito restritivas e uso prolongado de alguns medicamentos. Dosar zinco em alguém que come de tudo e não tem nenhum desses fatores raramente muda algo.
O mesmo raciocínio vale para proteína: a unha é feita de queratina, e desnutrição proteica importante afeta a lâmina. Mas aqui o diagnóstico é clínico e evidente, não laboratorial. E vitaminas como B12 e D aparecem na conversa popular sobre unha sem a mesma sustentação: a B12 tem repercussão hematológica e neurológica bem descrita, e a vitamina D, segundo a diretriz de 2024, não deveria nem ser dosada de rotina em quem não tem fator de risco.
A biotina: o paradoxo do suplemento mais vendido para unha
Aqui está a parte que eu considero a mais útil do texto, e que não aparece em nenhum conteúdo sobre unhas fracas. A biotina é o suplemento mais associado a cabelo e unha, e a evidência de benefício em pessoas sem deficiência é fraca. Deficiência real de biotina é rara, e acontece em situações bem específicas.
O problema maior é outro: a biotina interfere em exames de laboratório. Muitos testes usam a ligação entre biotina e estreptavidina para medir hormônios, marcadores cardíacos, marcadores tumorais, marcadores de infecção e concentração de medicamentos. A biotina do suplemento compete com os reagentes do teste e pode produzir resultados falsos clinicamente significativos.
Os números dão a dimensão. A interferência é possível a partir de 150 microgramas por unidade de dose em produtos orais, e a partir de 60 microgramas em produtos injetáveis, enquanto a ingestão diária recomendada é de cerca de 30 microgramas. Muitos suplementos de beleza trazem doses dezenas ou centenas de vezes maiores que isso.
O exemplo mais ilustrativo é tireoidiano: a biotina pode produzir TSH falsamente baixo com T3 e T4 livres falsamente altos, um padrão que imita doença de Graves. E o mais grave é cardíaco: a FDA relatou aumento de eventos adversos, incluindo uma morte causada por resultado falsamente baixo de troponina, que é o exame usado para diagnosticar infarto. Alguns laboratórios orientam suspender a biotina por pelo menos 12 horas antes da coleta, como precaução.
Juntando as duas pontas: tomar biotina para unhas fracas tem benefício incerto e um risco concreto de bagunçar exames que importam. Se você usa, avise sempre no laboratório e ao médico.
O que explica unhas fracas e não é vitamina nenhuma
Essa é a lista que resolve a maioria dos casos. Contato repetido com água e detergente é a causa número um, e explica por que o problema é tão mais comum em quem lava muita louça ou trabalha com limpeza. Acetona e removedores ressecam a lâmina. Esmalte em gel e acrílico, com a lixa que precede a aplicação e o processo de remoção, afinam a unha de forma cumulativa.
Depois vêm as causas dermatológicas: onicomicose, que é infecção por fungo e precisa de exame micológico para ser confirmada, porque tratar fungo sem confirmação é comum e muitas vezes errado; psoríase, que dá pontilhado na superfície da unha; e líquen plano. Trauma repetitivo, hábito de roer, e o envelhecimento natural da lâmina fecham o grupo.
Nenhuma dessas causas melhora com vitamina, e todas têm conduta própria. É por isso que a pergunta certa não é qual vitamina está faltando, e sim o que mudou nas suas mãos nos últimos meses.
Os exames que valem a pena
Diante de unhas fracas persistentes, o pedido enxuto e defensável é: hemograma, ferritina e TSH. Com sintomas ou contexto que justifiquem, acrescentam-se zinco, albumina e cálcio e magnésio. Se a suspeita é de fungo, o exame é micológico direto com cultura, feito a partir de raspado da unha, e não um exame de sangue.
O que não vale é o painel de vitaminas completo, com dez itens de uma vez. Quanto mais parâmetros, maior a chance de algum cair fora da faixa por puro acaso, e aí você troca uma queixa simples por três investigações sem rumo.
Sinais na unha que pedem avaliação médica
Alguns achados não são sobre fragilidade e não esperam. Uma faixa escura única, longitudinal, que cresce com a unha ou mancha a pele ao redor, precisa de avaliação dermatológica, porque pode ser melanoma subungueal. Mudança na curvatura das pontas dos dedos, com unhas que se arredondam sobre a polpa, chamada baqueteamento, associa-se a doenças cardíacas e pulmonares.
Também merecem consulta: descolamento extenso da lâmina, dor e pus ao redor da unha, linhas transversais profundas que aparecem depois de doença grave, e alteração que atinge todas as unhas ao mesmo tempo de forma rápida.
Perguntas frequentes sobre unhas fracas
Suplemento para cabelo e unha funciona?
Funciona quando corrige uma deficiência que existe, principalmente de ferro. Em quem não tem deficiência, o benefício é incerto, e no caso específico da biotina existe o risco de interferência em exames. O dinheiro rende mais em uma dosagem de ferritina do que em três meses de cápsula.
Esmalte em gel estraga a unha?
O esmalte em si não é o principal problema: o desgaste vem do lixamento antes da aplicação e da remoção, repetidos a cada poucas semanas. Intervalos entre aplicações e remoção feita por profissional reduzem o dano. Se as unhas fracas começaram depois de iniciar esse hábito, o teste mais informativo é pausar por dois a três meses.
Quanto tempo para ver melhora depois de corrigir a causa?
Meses, inevitavelmente. Como a unha da mão cresce cerca de 3 milímetros por mês, é preciso esperar que a lâmina nova substitua a antiga. Melhora visível em duas semanas não existe, e qualquer produto que prometa isso está prometendo o impossível.
Preciso de jejum para esses exames?
Hemograma, ferritina e TSH não exigem jejum. O jejum entra quando o mesmo pedido traz glicemia ou colesterol. E, se você toma biotina, suspender antes da coleta é mais importante do que o jejum, conforme a orientação do seu laboratório.
Vale lembrar que unha e cabelo compartilham praticamente a mesma lista de causas laboratoriais, porque os dois são tecidos de renovação rápida e sensíveis a deficiência e a alteração hormonal. Se o seu caso envolve os dois, ou principalmente o cabelo, o roteiro completo está em queda de cabelo, qual exame pedir.
Fontes
- Health Sciences Authority. Biotin interference with clinical laboratory tests.
- Evaluation of Anemia. MSD Manuals, versão para profissionais.


