Vou começar com a informação que mais muda a investigação de queda de cabelo, e ela não é um exame: no eflúvio telógeno, que é a queda difusa mais comum, a perda começa de 3 a 4 meses depois do gatilho. Três a quatro meses.
Isso significa que, quando você corre para o laboratório porque o cabelo está caindo agora, o evento responsável aconteceu no fim do ano passado: uma gravidez, uma cirurgia, uma doença com febre alta, uma mudança de medicamento, uma perda importante, uma dieta restritiva. O exame de hoje mede o presente; a causa está no passado. É por isso que tantos painéis voltam normais em quem está perdendo cabelo de verdade.
Os exames têm lugar, e eu listo os seis que fazem sentido. Mas eles vêm depois de duas coisas mais importantes: identificar o padrão da queda e fazer um teste que não custa nada.

Primeiro: quanto cabelo é normal perder
Antes de falar de queda de cabelo anormal, vale saber o que é normal, e isso tem resposta numérica. O couro cabeludo normalmente perde de 50 a 100 fios por dia, que são os que chegam ao fim da fase de repouso. Contagens acima de 100 por dia são consideradas anormais, com uma exceção importante: no dia em que você lava o cabelo, contagens de até 250 fios podem ser normais, porque a lavagem desprende de uma vez os fios que já estavam soltos.
A forma correta de medir isso, se a dúvida persistir, é contar os fios perdidos ao longo de 14 dias, e não se assustar com a quantidade de uma lavagem isolada. Muita gente procura ajuda achando que tem queda de cabelo anormal quando está apenas lavando o cabelo a cada três dias e vendo o acúmulo de três dias de uma vez.
Segundo: o teste de tração, que custa zero
É um exame de consultório, feito em segundos, e informa mais sobre a sua queda de cabelo do que a maioria dos painéis laboratoriais. Aplica-se tração suave sobre um conjunto de cerca de 40 fios, em pelo menos três áreas do couro cabeludo, e contam-se os fios que saem.
O normal é sair menos de 3 fios em fase telógena por tração. Mais de 4 a 6 fios por tração caracteriza um teste positivo e sugere eflúvio telógeno. O teste também pode ser positivo em outras situações, como alopecia androgenética inicial e alopecia areata avançada, o que não o invalida: ele separa queda difusa ativa de queda que já estabilizou.
Junto dele entra a tricoscopia, um exame com dermatoscópio que amplia o couro cabeludo e os fios, permitindo ver afinamento progressivo, alterações da haste e padrões específicos de cada tipo de alopecia. Esses dois, somados ao exame físico, resolvem a maior parte dos diagnósticos antes de qualquer tubo de sangue.
Terceiro: identificar o padrão
Cada tipo de queda de cabelo tem uma assinatura visual, e é ela que orienta tudo o que vem depois. Vale comparar o seu caso com esta tabela antes de pensar em exame.
| Tipo | Como se apresenta |
|---|---|
| Androgenética masculina | Começa nas têmporas e na coroa, podendo evoluir para rarefação difusa |
| Androgenética feminina | Rarefação da coroa, com a parte central mais larga no alto do que na nuca |
| Eflúvio telógeno | Queda difusa, mais de 100 fios por dia, 3 a 4 meses após um gatilho |
| Eflúvio anágeno | Queda intensa 2 a 4 semanas após quimioterapia ou radioterapia |
| Alopecia areata | Placas circulares bem delimitadas, com fios curtos e quebrados em ponto de exclamação na borda |
| Alopecia cicatricial | Folículo destruído de forma irreversível, com vermelhidão, descamação ou pústulas |
| Tração e tricotilomania | Perda na linha frontal e temporal, ou perda assimétrica e irregular |
Duas linhas dessa tabela merecem destaque. A alopecia cicatricial é a única em que o folículo se perde para sempre, e por isso é a que tem mais urgência: quanto antes for tratada, mais folículo sobra. E a sífilis secundária pode causar uma queda de cabelo em placas com aspecto descrito como roído de traça, o que coloca a sorologia na investigação em casos selecionados.
Os 6 exames que fazem sentido, e quando
Vale dizer com clareza o que a literatura de referência diz: nenhum desses exames é rotina. A solicitação é guiada pela suspeita clínica, e a própria fonte deixa isso explícito ao tratar de queda androgenética, dizendo que iron, ferritina, vitamina D e função tireoidiana podem ser considerados se a história indicar.
1 e 2. Ferritina e hemograma
A deficiência de ferro é a candidata nutricional com melhor relação com a queda de cabelo difusa, e a ferritina é o exame que a identifica antes da anemia, porque as reservas se esgotam primeiro. Dá para ter ferritina no chão com hemograma e hemoglobina perfeitamente normais, cabelo caindo e cansaço. Vale saber que não existe consenso sobre um ponto de corte de ferritina específico para queda de cabelo: o que existe é a correção da deficiência quando ela está presente.
3. Função tireoidiana
Tanto hipo como hipertireoidismo causam queda de cabelo difusa, e o TSH é o exame de triagem mais sensível, porque se altera antes do T4. Quando a queda vem acompanhada de cansaço, intolerância ao frio, pele seca e constipação, ou do oposto, com perda de peso e palpitação, a suspeita ganha corpo. As faixas estão em TSH e T4 livre.
4. Zinco
Aparece na literatura como possível causa nutricional de eflúvio telógeno, e não como exame de rotina. Dosar zinco faz sentido em quem tem contexto que justifique: cirurgia bariátrica, doença que reduz absorção, dieta muito restritiva, alcoolismo crônico.
5. Vitamina D
Está entre os exames que podem ser considerados, e aqui eu preciso ser honesto sobre a divergência: a diretriz da Endocrine Society de 2024 recomenda não dosar 25-hidroxivitamina D de rotina em nenhuma população estudada, por não haver benefício de desfecho atrelado a níveis. Ela entra, portanto, como item de contexto, não como obrigatório, e eu trato dessas faixas em vitamina D.
6. Androgênios em mulheres
Este é o pedido com indicação mais clara de todos. Em mulheres com queda de cabelo significativa somada a menstruação irregular, acne, hirsutismo ou outros sinais de virilização, a recomendação é dosar hormônios como testosterona e DHEAS. Nesse contexto o exame deixa de ser pesca e passa a investigar uma causa específica, e vale lembrar que o uso de anticoncepcional altera a leitura da testosterona por elevar a proteína que a transporta.
O suplemento mais vendido para cabelo e o problema que ele cria
A biotina aparece na literatura entre as possíveis causas nutricionais de eflúvio telógeno, ao lado de zinco e ferro. Deficiência real dela, porém, é rara, e o benefício da suplementação em quem não tem deficiência não está demonstrado.
O que está demonstrado é o estrago que ela faz nos exames. A biotina interfere em imunoensaios que usam a ligação biotina-estreptavidina, e pode produzir resultados falsamente altos ou baixos em dosagens hormonais e marcadores cardíacos. A interferência é possível a partir de 150 microgramas por dose em produtos orais, enquanto a ingestão diária recomendada é de cerca de 30 microgramas, e muitos suplementos de beleza trazem doses dezenas de vezes maiores. Eu detalho os números, inclusive o caso de troponina falsamente baixa relatado pela FDA, em unhas fracas.
A consequência prática é desconfortável: tomar biotina para a queda de cabelo pode atrapalhar justamente os exames que investigariam a causa dela. Se você usa, avise no laboratório e ao médico.
Em homens jovens, uma pergunta específica
Queda de cabelo de padrão masculino, sem outros achados, normalmente não exige exame nenhum. Existe, porém, uma exceção que a literatura destaca: em homens jovens sem história familiar, vale perguntar sobre uso de esteroides anabolizantes e de outros medicamentos. É uma causa frequente, subdeclarada, e que muda completamente a conversa.
Quando procurar avaliação sem esperar
Queda de cabelo com vermelhidão, descamação, pústulas, dor ou coceira intensa no couro cabeludo sugere alopecia cicatricial, em que o folículo se perde de forma irreversível, e é o cenário com mais pressa. Placas que surgem rapidamente, perda de pelos de outras áreas do corpo, queda acompanhada de lesões de pele, e qualquer queda abrupta e intensa também pedem avaliação dermatológica rápida.
Perguntas frequentes sobre queda de cabelo
Preciso de jejum para esses exames?
Hemograma, ferritina e TSH não exigem jejum. Se o pedido vier com glicemia ou colesterol, o jejum entra por causa deles. Já a dosagem de hormônios em mulheres costuma ter orientação sobre fase do ciclo menstrual, e isso vale conferir.
Meus exames vieram normais. Então não é nada?
É o resultado mais comum, e ele é informativo. Painel normal aponta para causa que não aparece no sangue, principalmente alopecia androgenética, que é a mais frequente, e eflúvio telógeno cujo gatilho já passou. Ambos têm tratamento, e nenhum deles se vê no laboratório.
Suplemento para cabelo resolve?
Resolve quando corrige uma deficiência que existe, especialmente de ferro. Em quem não tem deficiência, o benefício não está demonstrado, e no caso da biotina existe o risco concreto de interferir em exames. O dinheiro rende mais em uma dosagem de ferritina do que em três meses de cápsula.
Quanto tempo para ver melhora?
Meses, inevitavelmente, porque o ciclo do fio é longo. No eflúvio telógeno, a recuperação costuma vir sozinha depois de resolvido o gatilho, e a densidade volta ao longo de meses. Qualquer produto que prometa resultado em duas semanas está prometendo o impossível.
Fontes
- Alopecia. MSD Manuals, versão para profissionais.
- Health Sciences Authority. Biotin interference with clinical laboratory tests.



[…] ou reduzido, inchaço associado, cansaço que não combina com o esforço do dia, pele mais seca, queda de cabelo, ou mudanças no ciclo menstrual em […]